Como o cérebro aprende a ler – Uma aula em neurociência

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Como o cérebro aprende a ler –

Uma aula em neurociência

 

Há bastante tempo estou focada em entender como funciona a alfabetização em crianças. Meus três filhos estão no espectro autista, e um deles é hiperléxico. Já havia escrito um texto sobre hiperlexia, há cerca de 2 anos (https://clinicaprokidsblog.wordpress.com/2016/09/09/meu-filho-tem-hiperlexia/). A hiperlexia é caracterizada pelo aprendizado muito precoce da leitura, sem instrução formal, e está relacionado a outros transtornos do desenvolvimento em sua maioria dos casos.

Meu primogênito entrou, neste ano, para o ensino fundamental. Naturalmente, toda mãe se preocupa com a alfabetização nesses anos iniciais. Meu filho já tem um bom “diagnóstico alfabético”, como se nomeia isso em pedagogia. Ele reconhece bem os sons das letras, consegue ler sílabas e palavras, ainda que lentamente. Está no nível silábico, antes mesmo de entrar na primeira série. Isso se deve à nossa caminhada: como ele tem alteração na fala, a consciência fonológica sempre foi muito trabalhada, tanto em casa como com a fonoaudióloga. A fono aplicou o método das boquinhas, que é um método fônico também utilizado na alfabetização, para estimulação da fala. Crianças autistas quase sempre têm uma consciência fonológica deficiente, portanto é importantíssimo que se ensine fonemas de forma explícita. Também, há 1 ano, percebendo como a área cerebral responsável pelos sons se relaciona com fala, com a área visual e área de compreensão, meu marido e eu decidimos que iniciar o processo de alfabetização do meu filho aos cinco anos poderia ajudar no desenvolvimento da fala e da compreensão. Fizemos em casa este processo, com auxílio do método fônico e do silábico, associado a uma exposição grande a histórias, livrinhos, revistinhas, atividades.

Neste início de ano, então, acabamos por nos deparar com uma situação que já era antecipada: as divergências que existem sobre os métodos de alfabetização. Essa questão existe em todas as escolas do Brasil, com pequenas exceções. Outros países também enfrentam discussões acirradas sobre os métodos de alfabetização.

Nos Estados Unidos, as “Reading Wars” (Guerras de Alfabetização – tradução livre) se dividem, principalmente, em dois grandes grupos: Phonics e Whole Language. Dentro de cada grupo se encaixam as mais diversas metodologias. Cada um deles defende seu método como o melhor, e criticando o outro.

No Brasil, temos uma inspiração construtivista muito grande. Seus grandes pensadores são: Paulo Freire, Vygotsky, Emília Ferreiro, entre vários outros. O método proposto é baseado na palavra inteira, onde a criança é exposta a vários textos escritos, parlendas, e músicas conhecidas, e o professor não dá nenhuma instrução explícita às crianças sobre os fonemas, grafemas e sílabas. Na exposição da criança ao material escrito, ela vai aprendendo com a experiência, olhando as palavras, e captando por si mesma o aprendizado a ler. Esse método é muito dependente da capacidade de compreensão, da capacidade de expressão e da natureza inquisitiva da criança. O benefício relatado é que a leitura e escrita são vinculadas ao contexto cultural no qual o indivíduo se insere e à influência que o ambiente exerce sobre a formação psicológica da pessoa. Com isso, a leitura teria mais significado do que a mera decodificação de letras e fonemas. Os métodos Whole Language se posicionam contra uma “pedagogia diretiva e autoritária”, pois a intervenção no desenvolvimento da criança tem maior preocupação com o meio cultural e as relações com o indivíduo.

No Método Fônico, as crianças recebem instrução explícita sobre os sons das letras, sobre a relação do fonema com o seu grafema, sendo a palavra quebrada em fonemas e sílabas, para que se aprenda a lê-la, de forma segmentada. Conforme a criança vai se tornando mais proficiente, a leitura da palavra vai se tornando mais rápida. Pelo método fônico se relata que a criança aprende a ler mais rapidamente, e que ela atinge maiores índices de alfabetização e letramento. O método fônico, tal como o Whole Language, também se divide em diversos métodos específicos de ensino dos fonemas e grafemas.

 

Pesquisar sobre os métodos de alfabetização é uma tarefa difícil, onde nos deparamos com muitas informações desencontradas, discursos inflamados sem embasamento científico, dificultando muito para se tomar uma opinião educada sobre o que é melhor para as crianças.

Ao ler Vygotsky (entrei em contato com este autor há uns 5 anos, com o livro Tools of the Mind – https://www.amazon.com/Tools-Mind-Vygotskian-Childhood-Education/dp/0130278041 ) fiquei fascinada com as ideias dos neo-Vygotskyanos, e certamente é interessante se deparar sobre as teorias de como o cérebro da criança funciona e aprende. Porém, há que se levar em conta que as teorias de Vygotsky foram escritas há mais de 100 anos, e nas últimas duas décadas muito se avançou sobre o conhecimento do funcionamento cerebral e sobre como o cérebro aprende, e mais ainda sobre os transtornos de aprendizagem. Hoje sabemos muito mais sobre como se dão estes processos.

Pretendo, então, resumir aqui, de forma bastante simplificada, processos cerebrais envolvidos na alfabetização e, assim, tentar concluir como seria a forma de educação mais adequada na pré-escola e nos primeiros anos do ensino fundamental, para que as crianças aprendam a ler efetivamente, com base na neurociência cognitiva.

 

O objetivo primordial da alfabetização é obter a compreensão do texto lido, isto é, obter o letramento. Compreender um texto envolve processamento da leitura em vários níveis. Em seu nível mais básico, o leitor deve converter acuradamente letras em fonemas e acessar o significado da palavra. Em níveis mais superiores ele deve ser capaz de ler palavras juntas que formam frases, e entender sua sintaxe para obter o significado da sentença. Finalmente, a nível do texto, o leitor deve ser apto a ler sentenças e parágrafos, adquirindo uma representação global do significado deste texto.

Falha em qualquer um dos níveis se traduz em um leitor com compreensão pobre do texto. A neurociência cognitiva tem ajudado a entender e demonstrar as causas subjacentes de falhas em adquirir o letramento adequado, além de indicar formas mais efetivas de manejar as dificuldades de aprendizagem.

O circuito básico de leitura situa-se no hemisfério cerebral esquerdo, e é dividido em três áreas principais: duas na região posterior (temporoparietal e occipitotemporal) e uma área frontal, localizada no giro frontal inferior. Essas áreas se interconectam de forma altamente organizada para processar e integrar os aspectos ortográfico, fonológico e semântico da palavra. Qualquer deficiência na interconexão dessas três áreas levará a dificuldades na leitura.

Estudos em neurociência cognitiva usam, principalmente, a Ressonância Magnética Funcional para identificar as áreas cerebrais ativadas no processo de ler. Quando se mostra uma palavra escrita a uma criança ainda não alfabetizada, o córtex visual posterior se acende, bilateralmente. Conforme a criança vai aprendendo a ler, um ponto importante começa a se formar na região temporooccipital, especificamente no hemisfério esquerdo. Esta área que se forma interconecta o córtex visual e o córtex fonológico, e se chama Visual Word Form Area (Área de Formação Visual da Palavra – apelidada por Dr. Stanilas de Letter Box – Caixa de Letra, em tradução livre). Essa área, que se forma da união da área fonológica com a área visual está associada ao desenvolvimento da habilidade de ler. Ela é imutável na sua localização, e está presente em pessoas alfabetizadas em qualquer língua. A falha na formação da Caixa de Letra está associada a dificuldades de alfabetização.

Na sequência, as áreas fonológicas conectam-se às áreas de acesso ao significado – semântica e sintaxe. Especificamente, a área que processa a linguagem falada é a que estabelece a maioria dessas conexões.

Portanto, é de suma importância que a consciência fonológica seja estimulada de forma direta e sistematizada, para que haja formação do circuito cerebral correto –córtex visual, Caixa de Letras, Sons e fonemas e significados – compreensão.

 

Você já recebeu este e-mail, ou  viu esta imagem publicada em redes sociais:

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Realmente, nosso cérebro consegue ler as palavras e também compreender o texto, mesmo que mais lentamente do que o normal, sem grande dificuldade. Porém, a afirmação de que não lemos a letra isolada, mas a palavra como um todo, é falaciosa. É nessa falácia que está embasado o método construtivista e o sócio-interacionista.

Vamos entender um pouco como funciona este processo.

A noção da palavra inteira veio de psicólogos do início do século 20. O argumento de que ler é extremamente rápido – instantâneo, levou à teorização que é usando a forma inteira da palavra que se dispara a leitura, e não se lê as letras individualmente. Realmente, demoramos exatamente o mesmo tempo ler palavras entre 3 e 8 letras. Isso cria uma ilusão de leitura da palavra inteira.

Mas vamos nos deter a como se processa a imagem da palavra em nossa caixa de letras. Cada agrupamento de neurônios se especializam em detectar determinadas junções de linhas (como as linhas do T, L, X…) e as identifica em padrões. Ao mostrarmos uma palavra, esses vários agrupamentos neuronais instantaneamente processam as junções de linhas e as integram, na área fonológica, identificando rapidamente a palavra toda. Por isso, é quase instantânea sua leitura.

Agora vamos nos ater em como esses grupamentos de neurônios se especializam e se formam, quando a criança está sendo alfabetizada. Crianças iniciando seu processo de alfabetização leem as letras e sílabas de forma seriada – sequencial – e depois as juntam, em um esforço mental e de memória, para identificar a palavra – somente depois acessando o significado. Conforme cada grupamento neuronal vai se especializando, este processo vai se tornando progressivamente mais rápido e automático – é o circuito neuronal de leitura se formando – e quando o processo de alfabetização se conclui, o resultado é um processamento paralelo de todas as letras – a ilusão de leitura da palavra inteira.

Também, foi identificado que pessoas com maiores índices de letramento apresentam um disparo maior na área da Caixa de Letras quando encontram palavras desconhecidas e grupamentos de letras que não têm significado – pseudopalavras (e.g pranticola) do que pessoas com índices de letramento menores. Dando tempo, pessoas com mais dificuldade na leitura conseguem ler palavras desconhecidas e pseudopalavras, utilizando-se de sequenciamento, como acontece com crianças que estão iniciando seu processo de alfabetização.  A marca de bom letramento na ressônância cerebral está em processar rapidamente as letras na caixa de leitura – maior ativação cerebral nessa área com palavras desconhecidas e pseudopalavras.

Quando testado que método alfabetiza mais rapidamente, o ensino explícito do fonema com o grafema é o que mais determina ativações neuronais e desenvolve as modificações necessárias para formação do circuito neural da leitura.

Não há evidência de que o método whole language está criando dislexia – porque dislexia é um transtorno biológico de forte fundo genético. Porém, este método está realmente criando um atraso no aprendizado a ler – na formação do circuito neural especializado de leitura – porque ele não combina com a forma com que o cérebro aprende.

O método whole word não ensina o cérebro a generalizar o aprendizado para palavras novas. Quando não instruído especificamente em relação às letras, e estimulado apenas com palavras inteiras, o cérebro dispara o córtex visual bilateralmente – assim atrasando o treino do hemisfério esquerdo em especializar-se no seu circuito.

O cérebro precisa focar nas letras individuais – inicialmente serialmente, e progressivamente, em paralelo.

 

Meu apelo é para que as pessoas ativamente envolvidas na educação de crianças nas escolas comecem a questionar e estudar sobre a forma que a criança aprende à luz da ciência atual.

 

Para reforçar meu argumento: digamos que eu decida ensinar um grupo de pessoas a jogar xadrez.

Eu explicitamente não ensinarei o movimento único de cada peça, nem a regra do jogo. Meu método de ensino será demonstrar o jogo, jogar com a pessoa, fazer com que as pessoas joguem entre elas. Também, não corrigirei os erros que este grupo de pessoas cometem ao jogar – esperando que, com o tempo, elas percebam o movimento de cada peça por si mesmas, e questionem sobre as regras do jogo.

Você acha justo aprender dessa forma?

É hora de repensar e buscar novas informações.

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Alguns textos sugeridos:

  1. Habilidades de leitura em crianças com diagnóstico de hiperlexia: relato de casos

CoDAS 2013;25(4):391-5   –   Dionísia Aparecida Cusin Lamônica

http://www.scielo.br/pdf/codas/v25n4/16.pdf

 

2. Prereader to beginning reader: changes induced by reading acquisition in print and speech brain networks

Journal of Child Psychology and Psychiatry      59:1 (2018), pp 76–87

Katarzyna Chyl, Bartosz Kossowski, Agnieszka Dezbska, Magdalena Łuniewska, Anna Banaszkiewicz,AgataZelechowska, Stephen J. Frost, William Einar Mencl, Marek Wypych, Artur Marchewka, Kenneth R. Pugh, and Katarzyna Jednorog

https://onlinelibrary.wiley.com/doi/pdf/10.1111/jcpp.12774

3. Neurobiological bases of reading comprehension: Insights from neuroimaging studies of word level and text level processing in skilled and impaired readers

Read Writ Q. 2013 Apr 1; 29(2): 145–167.

Nicole Landi,1,2 Stephen J. Frost,2 W. Einar Menc,1,2 Rebecca Sandak,2 and Kenneth R. Pugh2,3

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3646421/

 

4. Inside the Letterbox: How Literacy Transforms the Human Brain

By: Stanislas Dehaene

http://www.dana.org/Cerebrum/Default.aspx?id=39494

5. Lecture by Dr. Stanislas Dehaene on “Reading the Brain”

https://www.youtube.com/watch?v=MSy685vNqYk

 

6. How the Brain Learns to Read – Prof. Stanislas Dehaene

https://www.youtube.com/watch?v=25GI3-kiLdo

7. Bruce McCandliss: “Brain mechanisms of early reading skills”

https://www.youtube.com/watch?v=T8-f5jMyvf8

 

8. Bruce McCandliss, “Educational Neuroscience: Your Child’s Brain and Early Literacy”

https://www.youtube.com/watch?v=-Cmb6HW0n6k

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2 comentários

  1. Fantástico! A sua argumentação acerca deste assunto é muito pertinente! Eu também acredito no método fônico. Sou psicopedagoga e utilizo este método para ativar as habilidades de ver, ouvir e compreender os sons e os signos ( unindo grafemas e fonemas) na alfabetização de meus aprendentes. Percebo que o método ampara a criança em sua compreensão e mesmo as que apresentam dificuldade de aprendizagem se beneficiam com o método fônico!

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