ENTENDENDO O AUTISMO – INCLUSÃO E COMPREENSÃO DA SOCIEDADE

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Fala-se muito em autismo atualmente, e tenho notado que a maioria das pessoas, embora se interessem em saber sobre o tema, muitas vezes tem uma ideia bastante estereotipada sobre o que é autismo. Este post se dedica a tentar esclarecer de forma geral sobre o assunto.

Até 2013, haviam classificações diferentes para as pessoas com autismo, como a Síndrome de Asperger, que seria considerado um autismo leve, a Síndrome de Kanner, que classificaria os casos graves, e outras classificações, como a desordem do desenvolvimento pervasiva, o autismo atípico.

Com a nova revisão do DSM-V, livro que define as doenças mentais, o autismo foi unificado, e atualmente é englobado em um espectro, isto é: um contínuo de gravidades de sintomas, onde a pessoa pode apresentar apenas um grau leve, passando por vários graus de comprometimento, até casos graves, em que a interação social e comunicação não é possível. O Asperger perdeu sua classificação independente, sendo classificado nos transtornos do espectro do autismo (TEA).

Tal classificação no espectro é criticada por vários especialistas, pois pessoas com sintomas e dificuldades completamente diferentes são colocadas no mesmo diagnóstico. Apesar disso, a intenção de unificar o diagnóstico é tentar fazer o diagnóstico da presença de sintomas compatíveis com o espectro mais cedo possível, para que a criança possa receber intervenção precoce, o que pode modificar muito o futuro dela.

O que é o autismo?

O autismo é uma síndrome que envolve principalmente alterações na comunicação e na interação social, bem como algumas alterações sensoriais, como a audição ou tato. As crianças com autismo podem tanto se desenvolver normalmente no primeiro ano de vida, e posteriormente apresentar regressão na linguagem e nas interações sociais, como podem demonstrar sintomas já nos primeiros meses de vida. Na criança pequena, existem alguns pontos que podem chamar a atenção dos pais e do pediatra, como a diminuição do contato visual da criança com os cuidadores, a não aceitação de ser acalentado, a criança que não aponta para os objetos nem sorri em resposta a um sorriso dos pais, não responde ao chamado de seu nome. Ela ainda pode apresentar movimentos “estranhos”, como mexer os dedos em frente aos olhos, ou sacudir os braços ao lado do corpo, ou ainda andar na ponta dos pés. Ela pode apresentar hipersensibilidade a sons altos ou a certos tipos de toque, e frequentemente joga-se ao chão, chorando, sem razão aparente, sendo difícil de ser consolado. Ele pode brincar com seus brinquedos de forma não usual, como repetidamente alinhar brinquedos ou empilhar objetos.

O diagnóstico deve ser feito preferencialmente por uma equipe multidisciplinar, com um neurologista pediátrico experiente em autismo, associado a um fonoaudiólogo ou psicólogo.

A Academia Americana de Pediatria instituiu uma recomendação que todos os pediatras em consultas de rotina devem aplicar um teste entre os 18 e 24 meses de vida, o M-CHAT Revised, que avalia alguns sintomas comuns no autismo, para que essas crianças fossem encaminhadas brevemente para avaliação e intervenção.

O autismo é uma doença neurológica, onde as conexões dos neurônios ocorre de forma diferente, e tem forte componente genético. Causas ambientais diversas também parecem contribuir para seu surgimento. Está evidenciado que áreas do cérebro se desenvolvem de forma diferente. Ela afeta o comportamento da pessoa, claramente, mas sua origem certamente é orgânica, e não psicológica.

Não existe um exame que consiga identificar o autismo até o momento. O diagnóstico deve ser feito com base na avaliação da criança, em seus comportamentos e reações a estímulos, e na entrevista com os pais.

Cada pessoa é única, com habilidades e dificuldades tão diferentes que é difícil poder generalizar a descrição. Vários sintomas isolados podem estar presentes em pessoas fora do espectro do autismo. Uma criança que demora a falar não tem necessariamente autismo, existem diversas causas que podem determinar este atraso.

Quanto à idade média de diagnóstico do autismo, nos EUA, o CDC informa que o diagnóstico ocorre, em média, aos 4 anos, mas ele pode ser diagnosticado tão cedo quanto aos 2 anos.

Também, nos EUA, a frequência de diagnóstico do autismo atualmente está em 1 criança para cada 68. Não se sabe o porquê do aumento da incidência na última década, tema que está sendo extensivamente estudado. No Brasil não possuimos tais dados.

O autismo é mais frequente em meninos que em meninas, sendo em geral uma relação de quase 5 meninos para cada menina diagnosticada. Não se sabe exatamente o porquê disso, mas um grande estudo sobre o assunto sugeriu que há um “fator de proteção feminino”, e que para meninas desenvolverem sintomas autísticos seria necessário uma alteração genética mais expressiva ou mais grave. Tanto que, quando se avalia o autismo quanto ao comprometimento da inteligência, quando se observa a relação em autistas com retardo mental, a relação baixa para 2 meninos para cada menina.

O autismo é um espectro que engloba vários graus de severidade. Atualmente, 45 a 50% dos autistas apresentam inteligência preservada. Ela pode ser normal ou até elevada. Segundo a Temple Grandin, uma autista que é doutora em ciência dos animais, autora de vários livros sobre autismo e ativista dos direitos do autismo e dos animais, eliminar completamente o autismo seria privar o mundo dos grandes gênios da humanidade. Sugere-se que grandes nomes da ciência e das artes, como Einstein, Isaac Newton, Lewis Carroll, Mozart, Michelangelo e Charles Darwin eram autistas, segundo historiadores. Quando as alterações genéticas são graves demais, ela afeta a inteligência e a capacidade da pessoa em ter uma vida produtiva. Porém, alterações mais leves podem levar à genialidade, dada a capacidade inerente do autista em manter o foco em um assunto complexo e o fato de serem obcecados por determinados assuntos. Quando eles são estimulados corretamente, ensinados habilidades sociais pela família e terapeutas, e tendo mentores que incentivem suas habilidades únicas, eles podem ser pessoas extremamente produtivas para a sociedade.

Segundo alguns autores, o autista tem uma forma única de pensar, diferente das pessoas normais. Enquanto as pessoas tipicamente pensam de forma verbal, os autistas possuem um tipo de pensamento visual. Por isso se infere a dificuldade de aprender a falar, a existência frequente da memória fotográfica no autista, e também as habilidades matemáticas e geométricas únicas.

O autista costuma ter dificuldade em entender as interações sociais, em como se comportar frente a situações que exijam traquejo social. Demonstram muita dificuldade em notar que a pessoa que o ouve está aborrecida, entediada com o assunto. Tendem a falar apenas sobre os temas que o interessam, ignorando os interesses do colega. Assim mesmo, vários autistas hoje escrevem livros, onde demonstram gratidão por seus pais, por professores, relatam que amam, que gostariam de ter amigos, e que não entendem por que não conseguem manter uma amizade ou um namoro. Sentem-se sozinhos, tristes, alegres. Ter dificuldade em demonstrar seus sentimentos não significa que não sintam.

É importante que haja diagnóstico precoce, para que se inicie a intervenção em tenra idade. Crianças que recebem tratamento precoce tem melhor prognóstico no número de limitações na vida adulta. O autismo não é sentença de morte nem condenação. Atualmente, é possível com a intervenção precoce intensiva, iniciada antes dos três anos de idade, que uma criança que tenha sido classificada no espectro do autismo perca todos os critérios de classificação no final da infância. Podem manter ainda escores sociais aquém de seus colegas neurotípicos, mas com funcionamento normal dentro da sociedade.

Em dezembro do ano passado foi aprovada a Lei nº 12.764, que institui a “Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista”. Um dos fatores que mais gera polêmica é a inclusão das crianças dentro do espectro do autismo na escola regular, não sendo permitido às escolas recusarem a matrícula. A inclusão é importante, necessária, bem como o entendimento das pessoas sobre o espectro autista deve ser ampliado. Porém, tal lei não veio com medidas facilitadoras que permitissem que estas crianças recebam tratamento adequado por pessoas treinadas. Há muito a trilhar ainda.

A criança no espectro autista precisa ter acompanhamento fonoaudiológico, psicopedagógico, neurológico e de terapia ocupacional para poder ter a melhor oportunidade de desenvolvimento de suas habilidades e aprender a interagir no mundo real. Ainda há muito o que melhorar na rede de atendimento no Brasil.

Espero que este texto tenha ajudado a esclarecer o autismo para as pessoas em geral.

Sintam-se livres para compartilhar com o maior número de pessoas. Acendam uma luz para o autismo, que se vença o preconceito e aumente a compreensão.

Um beijo no coração.

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