Mentira na infância – Crianças mentem, mais que os pais imaginam

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 Recentemente estive lendo alguns artigos muito interessantes sobre as pesquisas de Victoria Talwar, uma psicóloga canadense que se detém em estudar o comportamento infantil e, mais especificamente, sobre como as crianças mentem, seu significado e maneiras de como abordar a mentira.

Todos os pais têm como objetivo criar filhos essencialmente bons, e tentam ensinar suas crianças a não mentir. Porém, de acordo com as pesquisas de Victoria, as técnicas mais comuns apenas ensinam as crianças a mentirem melhor, isto é, conseguirem mentir e sustentar melhor sua mentira.

Mentir é um marco do desenvolvimento. Quando uma criança consegue mentir, ela apresenta habilidades cognitivas e sociais para fazê-lo. Toda criança passa por esse processo, inicialmente tendo pouca consciência da mentira em si, e aprendendo com o tempo que mentir pode ajudar a reduzir as punições e censuras que recebem dos pais.

No trabalho de Victória, diversos experimentos interessantes foram feitos. Num deles, a criança senta de costas para um brinquedo, e deve adivinhar o que é pelo barulho que ele faz. O apresentador, então, aciona uma caixinha de música com Por Elise. Em cima da mesa, deixa uma bola de futebol. Nesse momento, o pesquisador fala que precisa sair da sala um momento, e pede que a criança não espie. Este trabalho foi repetido inúmeras vezes, e seus resultados são muito interessantes. Apenas 1/3 das crianças com 3 anos espiaram o brinquedo, e quando perguntados pelo pesquisador se elas haviam espiado, a maior parte admitia que sim. Mas, em crianças com 4 anos, mais de 80% espiou o brinquedo. E estas, quando questionadas, mentiram em 80% das vezes. Também foi testado nesse experimento se a criança conseguia sustentar a mentira, isto é, dar uma explicação plausível de como descobriu que era uma bola de futebol quando tocou a música. Crianças mais velhas ou com maior habilidade social e cognitiva conseguiam evitar vazar informação truncada, e muitas vezes diziam não saber qual era o objeto, mesmo o tendo espiado.

Os pais frequentemente deixam as primeiras mentiras passarem, já que inicialmente elas são consideradas inocentes, suas crianças são jovens demais para entender o que são mentiras, ou entender que mentir é errado. Quando as crianças ficam mais velhas e aprendem a distinguir certo de errado, os pais acreditam que as mentiras irão parar. Mas não é o que acontece. Quando as crianças têm discernimento do que é verdade e o que é mentira, elas têm maior probabilidade de contar uma mentira.

Estudos onde crianças são observadas em casa, aos 4 anos elas mentem uma vez a cada 2 horas, e aos 6 anos contam uma mentira por hora em média. 96% das crianças mentem diariamente aos seus pais e colegas.

A maior parte das mentiras servem para cobrir uma transgressão. Primeiro, a criança faz algo que não podia; então, para evitar ser censurada ou punida, ela nega ter feito. Nesses estudos observacionais, menos de 1% dos pais aproveitam essa situação para ensinar uma lição sobre mentira. O pai ou a mãe censura a transgressão, mas não a mentira. Pelo ponto de vista da criança, a tentativa de mentir não custou nada extra. Com o tempo, elas vão aprendendo a mentir melhor, por exemplo: aos três anos ela nega ter batido na irmã, sendo que a mãe presenciou o fato. Aos cinco, ela não cometerá tal erro.

De fato, mentir exige um grau cognitivo e social elevado da criança. Crianças que começam a mentir aos dois ou três anos e que conseguem sustentar a mentira aos quatro ou cinco anos se saem melhor em testes acadêmicos e de inteligência. Mesmo assim, como pais, precisamos lidar melhor com isso quando estamos educando nossos filhos.

No jogo de espiar da Dra Victoria, às vezes o pesquisador pausava o jogo e perguntava: “Eu vou fazer uma pergunta, mas você promete dizer a verdade?” “Você espiou o brinquedo quando saí da sala?” A promessa reduziu a chance de mentir em 25%.

Em outros cenários, o pesquisador leu uma pequena história antes de perguntar sobre se a criança espiou. Uma das histórias era a do menino que gritava lobo – a versão que o menino e as ovelhas são comidos pelo lobo porque o menino mentiu repetidas vezes.

http://poivre-rose.blogspot.com.br/2009/09/o-menino-que-gritava-lobo.html

Alternativamente, era lida a história de George Washington e a cerejeira (link abaixo), em que o jovem George Washington confessa a seu pai que ele cortou a cerejeira premiada, e o pai fala que ele não está triste pela morte da cerejeira, mas sim feliz porque o filho contou a verdade. Ouvir a verdade é muito melhor que ter mil cerejeiras.

http://www.usinadeletras.com.br/exibelotexto.php?cod=1431&cat=Reda%E7%E3o

Qual das histórias você acha que surte maior efeito em reduzir a chance da criança mentir? 75% dos pais acham que a primeira história, a do lobo, funciona melhor. No entanto, essa história não reduziu a chance da criança mentir quando questionada. Na verdade, após ouvirem esta história, as crianças mentiram mais que o usual.

Já a história do George e a Cerejeira reduziu a mentira em 75% nos meninos, e 50% nas meninas.

Por que uma fábula funciona tão bem, e a outra não? E o que podemos aprender sobre como ensinar as crianças a mentirem menos?

O menino pastor sofreu punição por suas mentiras, mas que mentiras são erradas não é novidade para as crianças. Quando questionados se mentir é sempre errado, 92% das crianças com 5 anos dizem sim. Mas quando perguntados por que mentir é errado, a maioria dirá que você é punido quando mente. Nesse sentido, crianças processam o risco de mentir considerando sua proteção. Levam vários anos para que as crianças entendam a mentira em um padrão moral mais sofisticado. Tornar a punição mais severa com a mentira não ajuda a reduzir a chance de mentir, na verdade acaba por exigir da criança maior habilidade em criar e sustentar sua mentira. Elas acabam por aprender a mentir melhor.

Remover a punição também parece não ajudar a extrair honestidade da criança. No teste, o pesquisador fala “eu não ficarei chateado se você espiou”. Os pais tentam uma versão disso frequentemente. Mas isso sozinho não reduziu a chance da criança mentir. A criança sabe que o pai ou a mãe deseja que ela não tenha feito uma transgressão, e mentir é sua melhor chance de deixar seus pais felizes. Então, quando ensinamos que dizer a verdade nos faz feliz, ensinamos à criança um conceito moral mais sofisticado a respeito de mentir e dizer a verdade.

E é por isso que a história de George e a Cerejeira funciona tão bem. George recebe imunidade e elogio por contar a verdade.

Como, então, podemos melhorar na educação de nossas crianças ao ensiná-las a não mentir?

  • Não deixe a mentira passar. Quando notar que a criança está mentindo, faça-a saber que o que ela fala não é verdade.

  • É importante que haja consequência para cada mentira, mas esta deve ser compatível com a transgressão que ocorreu. Muitas vezes perdemos a paciência e exageramos na consequência de alguma coisa banal. Por exemplo: irritar-se e colocar de castigo porque a criança derrubou o suco no tapete da sala, dizendo que já falou MIL vezes para cuidar. Melhor é manter a calma, e mostrar que o tapete manchou. Daí ofereça um pano e o ensine a limpar. Tente dar dimensão correta às transgressões.

  • Não teste a honestidade de seu filho desnecessariamente. Se você sabe que ele mentiu, não tem porque extrair uma confissão, perguntando muitas vezes: “Você fez isso?”. Aborde a mentira como um fato, e não um momento de fazê-lo confessar.

  • Faça-o entender que o valor da verdade é muito maior do que o dano ou transgressão que possa ter feito ele mentir. Aproveite o momento para dizer que a verdade te fará feliz, e elogie-o quando contar a verdade. Isso realmente funciona e ajuda seu filho a entender um conceito moral mais elaborado sobre verdade e mentira.

  • É importante tentar dar o exemplo. Os filhos consideram mentiras sociais, mentiras brancas e enganos que os pais cometem como mentira também, tendendo a classificar no mesmo grupo as mentiras “más” e as mentiras necessárias. Por exemplo, é importante ensinar à criança a agradecer um presente da tia que não gostou. A mentira social faz parte do desenvolvimento. Quando a criança pega os pais contando uma mentira, acabam por achar que é permitido mentir também. Essa é a parte mais difícil de lidar, certamente.

Espero que achem o texto interessante. Recomendo, para quem quiser ler mais sobre o assunto, o livro “Nurture Shock” de P.O. Bronson, que aborda de forma muito inteligente e sensível vários temas sobre criação de filhos.

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2 comentários

  1. Gostei muito, Rita! Indica a grande mãe que és e tua preocupação em fazer o melhor e, também, dividir estas considerações com outras mães e pais. Ótimo trabalho!!! Bjos

    Curtido por 1 pessoa

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