Meu bebê nasceu prematuro. E agora?

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Recentemente estava conversando com uma mamãe de prematuro, o Arthur, que ficou vários meses na UTI neonatal onde trabalho. Este bebê nasceu prematuro com 29 semanas, e tinha uma malformação congênita, gastrosquise. A gastrosquise é um defeito no fechamento da parede abdominal, e o intestino do feto fica para fora, por um buraco ao lado do cordão umbilical. Como o intestino fica exposto ao líquido amniótico,ele sofre danos, edema, irritação, levando a complicações.

A mãe do Arthur, a Jéssica, me procurou para pedir orientação. Ela quer escrever sobre a história de seu filho. Mais ainda. Ela quer ajudar outras mães de prematuros. Quer poder dar apoio a outras mães, esclarecer sobre o assunto. Ela me disse que desconhecia gastrosquise. Desconhecia o que era prematuridade. Acha que é importante que outras gestantes e mamães recebam esclarecimento e apoio. Precisa de um alento para seu coração de mãe.

Arthur, infelizmente, após vários meses lutando por sua vida, com seus pais ao seu lado, faleceu. Passou por altos e baixos, muitas complicações relacionadas à prematuridade, e também relacionadas à malformação. Eu pude ajudar um pouco essa família no período em que estiveram na UTI neonatal. Em geral, o tempo é curto. A demanda é enorme. As expectativas são grandes. E é difícil dar prognósticos. Acho que o mais importante que pude oferecer a esta família não foi tanto o apoio emocional, mas sim as fotos que tirei deles enquanto estavam na UTI com seu bebê. Frequentemente fotografo os bebês da UTI neonatal com autorização dos pais, fazendo várias vezes fotos “newborn” em UTI. Estas fotos são preciosas, e valem muito mais se os pais acabam por perder seu bebê.

Pois bem, fui convocada a ajudar Jessica a confortar seus sentimentos. Farei um post sobre prematuridade.

 

A prematuridade é uma das maiores causas de mortalidade infantil no mundo. É a maior causa de morte no período neonatal e segunda causa de morte infantil. Os sobreviventes podem apresentar sequelas duradouras como consequência da prematuridade, como a paralisia cerebral, problemas visuais e de audição, e problemas de aprendizado.

Estima-se que 5 a18% dos nascimentos sejam prematuros atualmente. A incidência de prematuridade vem aumentando na última década.

 

Classificação da prematuridade.

Um bebê é considerado prematuro quando nasce antes de 37 semanas de gestação. Podemos classificar os prematuros em três faixas, que costumam apresentar problemas diferentes em relação à idade gestacional ao nascimento:

    • Prematuro extremo: idade gestacional menor que 30 semanas

    • Prematuro moderado: idade gestacional entre 30 semanas e 34 semanas

    • Prematuro limítrofe: idade gestacional entre 34 semanas e 37 semanas.

 

Os prematuros também podem ser classificados quanto ao peso de nascimento, e sua adequação em relação à idade gestacional.

  • Baixo peso ao nascer: peso entre 1500 e 2500g

  • Muito Baixo peso ao nascer: peso entre 1000g e 1500g

  • Extremo baixo peso ao nascer: peso abaixo de 1000g

 

 

Frequentemente, um bebê que nasce antes das 34 semanas costuma apresentar problemas para respirar, sendo que quanto mais prematuro,mais frequente e grave é esta dificuldade respiratória. Um fator que influencia a gravidade no comprometimento da respiração é se a mãe recebeu corticóide em tempo hábil antes do nascimento do bebê. O uso do corticóide na gestante demonstrou reduzir as gravidade dos problemas respiratórios, hemorragias cerebrais e enterocolite necrotizante.

De forma geral, o bebê com peso inferior a 2000g deve ser monitorado em ambiente de UTI neonatal ou intermediário, conforme o risco. Ele não consegue manter o calor corporal, sendo frequentemente colocado em berço aquecido ou incubadora.

A alimentação de um bebê que tenha nascido antes das 34-35 semanas costuma ocorrer por uma sonda que vai até o estômago, pois ele ainda não tem um reflexo de sucção bem desenvolvido. O início da alimentação varia muito, dependendo do grau de prematuridade e das complicações obstétricas ou de nascimento que ocorreram.

O bebê precisará de acesso venoso, para receber hidratação, nutrição venosa e medicamentos. Este acesso pode ser feito nos vasos do cordão umbilical ou em veia periférica, conforme a gravidade.

Também é comum que ele receba, nos primeiros dias de vida, fototerapia, que é um banho de luz, porque são muito mais propensos a desenvolver icterícia neonatal.

É importante se acostumar e aprender a terminologia usada, pois no período inicial tudo é novo, e assustador no ambiente neonatal. Em geral, após as primeiras semanas vemos os pais já craques nos termos relacionados à UTI neonatal. Acho importante que os pais entendam os problemas que seus filhos estão enfrentando durante o período na UTI neonatal.

 

Qual a chance de vida do meu bebê?

Essa pergunta, proferida ou não, está na cabeça de todos os pais de prematuro. Embora seja difícil responder de forma específica, podemos usar de alguns dados gerais estatísticos para tentar clarear um pouco esta dúvida.

Com 24 semanas de idade gestacional  encontra-se o limite de viabilidade. Um bebê com peso de nascimento inferior a 500g, que tenha menos de 30cm de comprimento, e aspecto muito imaturo (ex. Fusão das pálpebras) costuma não sobreviver as primeiras horas de vida, não importando o grau de investimento médico que seja feito. Com 24 semanas de idade gestacional, a chance de sobrevivência está entre 9 e 20%.

Com 27 semanas de idade gestacional, a chance de sobrevivência pula para 50 a 80% de chance de sobrevivência, sendo que peso de nascimento menor que 1000 gramas envolvem maior mortalidade.

Com 32 semanas até 35 semanas, a chance de sobrevivência fica entre 80-90%, sendo que quanto maior a idade gestacional ou o peso, maior é esta chance.

Após as 35 semanas de idade gestacional, a mortalidade cai para 1-2%.

#É importante notar que as complicações que o bebê apresenta durante o período fetal e neonatal também podem influenciar na mortalidade. Este é um guia geral baseado apenas em idade gestacional e peso de nascimento.

 

Quando ele poderá ter alta hospitalar?

Comumente, os pais perguntam isso já na admissão na UTI. É impossível determinar, logo ao nascer, quanto tempo seu bebê precisará ficar internado. Dependerá das complicações e da evolução dele no período.

Uma boa estimativa geral é: calcular que a alta do bebê ocorrerá próximo à data provável do parto.

O bebê, para ter alta, precisa conseguir manter o calor corporal, alimentar-se por sucção, estar ganhando peso de forma consistente, não apresentar apnéias ou pausas na respiração, não necessitar de oxigênio, pesar > 2000 g e ter idade corrigida >35 semanas de gestação.

 

Qual o meu risco de ter um parto prematuro?

Se você teve um parto prematuro previamente, existe uma maior chance de ocorrer nas próximas gestações.

Grávidas de gêmeos e múltiplos também tem maior risco.

Gestantes com encurtamento do colo do útero, medido preferencialmente entre 20 e 24 semanas, têm maior risco de entrar em trabalho de parto prematuro.

Condições médicas durante a gravidez aumentam o risco:

  • Infecção urinária

  • Infecções vaginais bacterianas

  • Aumento na pressão arterial

  • Diabetes

  • Algumas anormalidades fetais

  • Gestação que é produto de fertilização in vitro

  • Obesidade ou baixo peso materno

  • Placenta prévia (quando a placenta cobre a saída do útero)

Fatores de estilo de vida que também aumentam o risco:

  • Pré-natal iniciado no terceiro trimestre ou sem pré-natal

  • Tabagismo

  • Uso de álcool na gestação

  • Uso de drogas ilegais

  • Stress

  • Mulheres que trabalham muitas horas em pé

 

Como reconhecer um trabalho de parto prematuro?

É importante o reconhecimento dos primeiros sintomas, para que haja tempo de inibir um trabalho de parto prematuro inicial e seja possível melhorar as chances de sobrevivência do bebê. Procure seu médico se estiver sentindo algum destes:

  • Dores nas costas, constante ou em cólicas, que não melhora nem quando você muda de posição.

  • Contrações regulares que ocorrem a cada 10 minutos

  • Cólicas em baixo ventre ou nas costas

  • Perda de líquido pela vagina

  • Sensação de pressão na vagina

  • Sangramento vaginal

#Estes sintomas podem ocorrer em uma gestação normal, mas é importante que haja avaliação médica se há evidência de trabalho de parto prematuro ou não.

 

Como prevenir o trabalho de parto prematuro?

Cortar hábitos como o cigarro e o álcool, alimentar-se bem, tomar suas vitaminas de pré-natal, e ingerir bastante líquidos são medidas gerais para ajudar na prevenção.

Cuidado dental é extremamente importante, e tratar inflamações de gengivas e dentes diminui a chance de parto prematuro.

Diagnosticar e tratar condições médicas durante a gestação, como infecções ginecológicas e urinárias, controlar diabetes e hipertensão são importantes para redução do risco.

Se você é considerada uma gestante de risco para parto prematuro, é preferencial fazer seu pré-natal com um obstetra que tenha experiência com gestações de risco. Frequentemente, na rede pública, o pré-natal de baixo risco é feito por médicos generalistas ou de medicina comunitária. É importante encaminhar para o pré-natal de alto risco quando necessário.

Também interessante é a consulta pediátrica no pré-natal, com um neonatologista, onde várias dúvidas específicas relacionadas ao seu bebê ainda na barriga podem ser sanadas.

 

# Este post, apesar de extenso, não pretende esgotar o assunto nem substitui a orientação médica.

 

 

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